Há mais de duas décadas transformando o Carnaval de Niterói em um espaço de conscientização sobre o cuidado em liberdade, o Bloco Loucos pela Vida desfilou pelas ruas da cidade na tarde desta terça-feira (10). Com versos marcantes como “CAPS não é meme”, o bloco fez referência ao trabalho essencial realizado pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
“O Loucos pela Vida é uma excelente oportunidade para combater rótulos e preconceitos enfrentados por pessoas em sofrimento psíquico, além de reforçar a importância dos nossos Centros de Atenção Psicossocial. Tudo isso com alegria e a descontração que um bloco de carnaval proporciona", afirmou a secretária municipal de Saúde Ilza Fellows.
A diretora-geral da Fundação Estatal de Saúde de Niterói (FeSaúde), Maria Célia Vasconcellos, que coordena a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), também celebrou a existência do bloco. “Esse grupo da Saúde Mental tem uma visão ampla. O Bloco Loucos pela Vida é uma demonstração clara disso. Está cada vez maior e melhor — e a cada ano vai crescer ainda mais. Isso é dignidade!”, destacou.
Com um público estimado em cerca de 300 pessoas — entre usuários da rede de saúde mental, familiares, profissionais e moradores do município — os foliões saíram da Praça Arariboia em direção à Praça da Cantareira, levando alegria, música e entusiasmo ao percurso.
Para o psicólogo Vinícius Ramos, que atua no CAPS Ad III Alcenir Veras, a inciativa tem um significado especial. "É um dia diferente, em que vamos às ruas e mostramos à cidade uma nova faceta do que é ser usuário da saúde mental”, afirmou. Segundo ele, a iniciativa ajuda a romper estigmas: "mostra que são pessoas como qualquer outra, que querem se divertir, ser felizes e aproveitar a cidade. É uma forma de estar fora dos serviços de saúde, em um ambiente mais descontraído, e de construir, aos poucos, um novo lugar para esses indivíduos na cidade.”
Com direito a rainha da bateria, o bloco neste ano tinha como "realeza" a Ana Paula Ramos. Passista talentosa, ela teve sua trajetória acolhida pela saúde mental de Niterói, que atua no cuidado em liberdade e na promoção da autonomia. A partir de sua participação no Centro de Cultura e Convivência, foi convidada a integrar o bloco. “Todo mundo torcia para eu me candidatar à realeza. Ganhei este ano e estou muito feliz”, comemorou.
O desfile também prestou homenagem a Francisco Protásio, supervisor administrativo do CAPS Martha e Dr Jacinto e militante do movimento antimanicomial. Estandartes com seu nome foram exibidos ao longo do percurso. Sua viúva, a psicóloga Juliana Cecchetti, relembrou sua trajetória: “Ele atuou na Saúde Mental por muitos anos e sempre teve uma visão clara de cuidado para além da frequência aos serviços de saúde”. Trabalhando no Centro de Cultura e Convivência, Francisco defendia o cuidado nos territórios, fortalecendo redes de convivência para além das unidades de saúde. “Isso estava presente no trabalho dele, na vida dele e chegava à família e aos amigos. O Loucos pela Vida sem ele perde muito. Ele também brincava muito o Carnaval”, concluiu.
Criado a partir das práticas da rede municipal de saúde mental, o Loucos pela Vida hoje funciona como um coletivo cultural autônomo, com apoio da Secretaria Municipal de Saúde e da Fundação Estatal de Saúde de Niterói (FeSaúde). Este ano, o bloco também contou com a parceria do GRESS Magnólia Brasil e da Secretaria Municipal das Culturas para desfilar pelas ruas da cidade. A iniciativa integra arte, cuidado e cidadania, ampliando o olhar sobre saúde e promovendo inclusão por meio da cultura popular.
O Bloco Loucos Pela Vida é uma iniciativa da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) que atua para além do carnaval. As atividades acontecem no Centro de Convivência e Cultura Dona Ivone Lara, dispositivo da RAPS responsável por desenvolver oficinas, ensaios e apresentações que estimulam a expressão artística e fortalecem o cuidado em saúde mental, com foco na inclusão, no acolhimento e na convivência comunitária.
Fotos: Bruno Eduardo Alves